Down the rabbit hole…
Dizem que todo ser humano tem, quando se encontra a beira de lugares muito altos, uma vontade enorme de pular. Não sei os outros (e não quero questionar se sou realmente humana), mas eu tenho. As vezes acho que a única coisa que me impede de realmente pular é o instinto de sobrevivência - não posso nem dizer que é minha consciência… Eu simplesmente quero pular, mesmo sabendo que eu provavelmente vou morrer ou quase morrer depois disso. E eu não estou me referindo apenas a abismos geográficos…
Não sei se eu sou a única, mas toda vez que estou beirando um “precipício” eu olho pra baixo e, as vezes pela distância, as vezes pela falta de óculos, tenho a impressão de que o que me espera lá embaixo é bem mais bonito e interessante do que o que está aqui em cima. Na maioria das vezes eu me seguro, lembro que das outras vezes que eu pulei, acabei quebrando partes do meu corpo que teóricamente não são quebráveis. Mas algumas vezes, mesmo sabendo do risco e das consequênncias, eu pulo. Pulo na esperança de conseguir tudo o que eu ví, e com a crença de que os ferimentos que farei serão “curáveis”.
A queda geralmente é muito parecida: no ínicio me dá uma imensa sensação de leveza e liberdade, é como voar sem asas; depois de um tempo se torna meio cansativo, como a Alice, eu começo a achar que não vou parar de cair nunca… isso até eu perceber que estou começando a ficar muito perto do chão. Com a perspectiva do chão se apoximando eu começo a me perguntar por que é que eu pulei; geralmente, desse ponto até o chão é uma queda bem rápida. E então eu ouço o “baque” do meu corpo atingindo o chão, geralmente de olhos fechados pra não ver o sangue.
A recuperação demora. Dói. A subida até algum outro monte é lenta e cansativa. Algumas vezes eu choro por dias, outras eu aguento a dor e não derramo nem uma lágrima. Eventualmente o sangue estanca, as feridas se fecham, e as cicatrizes ficam quase invisíveis, mas no fundo eu sei que elas estão lá… principalmente as cicatrizes internas. Toda vez que meu sangue pulsa, eu sinto cócegas.
Enquanto subo algum outro morro, pra fugir da realidade do fundo do abismo, eu me pergunto frequentemente por que é que eu ainda acredito no que vejo lá de cima, por que eu ainda tento, e geralmente não acho a resposta. Só quando estou quase chegando na parte final da subida é que eu me lembro que - além de ser uma romântica incorrigível e míope - eu pulei por conta da perspectiva de algo melhor, mais completo. E então eu percebo: mesmo com as cicatrizes e as marcas horríveis que isso me deixa, a queda faz tudo valer a pena. Não há nenhuma sensação como a de cair de cabeça, sem paraquedas… não há nem como explicar.
No fim, quando eu percebo que estou curada o suficiente eu acabo pulando de novo. Sempre na esperança de que, um dia, quando for real, eu vou ver sempre as coisas lindas que via lá de cima, mas nunca vou parar de cair. Será como “cair até chegar ao outro lado do mundo” e então continuar caindo. E se um dia acontecer de a queda nunca acabar, eu saberei que é porque tem alguém me “segurando”, alguém que faz tudo o que eu vi lá embaixo ser real…